
ITINERÁRIO DE UM SONHO:
HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DA CRECHE AMADEU BARROS LEAL
Na condição de professor de “Direito do Menor”, na Universidade Federal do Ceará e na Unifor, visitava com regularidade, na companhia de meus alunos, instituições que atuavam na área de assistência à infância desvalida.
Em cada semestre elegíamos uma entidade, governamental ou não, a que comparecíamos previamente a fim de identificar suas carências e nortear as compras que efetuávamos com a contribuição individual dos estudantes. A entrega era sempre o pretexto para uma festa junina ou natalina, de conformidade com o período das aulas.
Relembro com carinho a manifestação de reconhecimento dos dirigentes das instituições que recebiam, efusivamente, toalhas, lençóis, fraldas, roupas de cama, pratos, talheres, panelas, vassouras, eletrodomésticos e até equipamentos de lazer quando à parcela arrecadada se agregavam doações excepcionalmente generosas de terceiros.
Assim foi durante muitos anos até que concluí haver chegado o momento de concretizar algo mais duradouro. Lancei, então, a semente de uma creche sem fins lucrativos, que se destinaria exclusivamente a filhos de presidiárias (na época era também professor de Direito Penitenciário da UFC, de modo que produzi o enlace das duas disciplinas).
Seria, como efetivamente o foi, a primeira e única creche não institucional do país para filhos de mulheres encarceradas.
Acatada entusiasticamente a idéia, procedemos à escolha, renovada duas vezes no ano letivo, dos tesoureiros que recolhiam em cada turma as mensalidades depositadas em seguida numa conta de poupança, aberta com esse fim específico na Caixa Econômica Federal.
A par disso, resolvemos levar a cabo festas dançantes, bingos, rifas e toda sorte de promoções com o fim de angariar recursos. Entre todas guardo muito vívida a lembrança de um Show Beneficente, levado a efeito no Círculo Militar, e que nos estimulou a alçar vôos na busca de recursos para a viabilização do projeto.
Pouco a pouco, uma soma razoável foi obtida dessa forma.
Prevaleceu o entendimento de que convinha formalizar a entidade. Redigi, por conseguinte, seus estatutos e os registrei em cartório e nas repartições pertinentes.
No dia 18 de setembro de 1987 (mais de vinte e um anos se passaram), convidei um grupo de amigos para um encontro na OAB. Entre eles estavam: minha esposa Ivana e seu pai Ivon Tomé de Souza; o Procurador do Município Meirielson F. Rocha e sua esposa Ana; o Professor Paulo Amorim Cardoso; o Procurador da Justiça Militar Nelson Arruda Senra; o Des. José Maria Melo; os médicos Silas Munguba e Francisco Sérgio Pinheiro Regadas; a Dra. Ivaldy; meu tio Antenor Barros Leal e sua esposa Amélia; minha prima Maria Amélia; o então vereador Samuel Braga; e meus irmãos Vladimir; Regina e Heloisa Pedi-lhes, então, seu concurso para seguir adiante em nosso projeto.
Logo depois, no exercício da função de Subsecretário de Justiça, no governo do Dr. Ciro Ferreira Gomes, inferi que poderia dar um passo definitivo. Foi quando recebi, em meu gabinete, a Dra. Enoe Araripe Autran, Diretora do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, que me confidenciou ter o mesmo desejo: criar uma associação de amparo a criancinhas pobres. Surpreendeu-se a ilustre amiga com a notícia de que já havia avançado bastante nessa direção.
Ali mesmo decidimos congregar nossos esforços. Solicitamos uma audiência com a Dra. Patrícia S. F. Gomes, que, na condição de primeira dama do Estado, nos ouviu atentamente e se dispôs a obter um financiamento. Também tivemos o apoio precioso da Dra. Fátima Catunda, então Secretária do Trabalho e Ação Social, da Dra. Tânia Nobre, Presidente da FEBEMCE e do Dr. Antonio L. Tavares, Secretário de Justiça.
Faltava o terreno e o projeto da obra. Junto ao Bom Pastor, nosso parceiro de todas as horas, conseguimos, em regime de comodato, renovado até hoje, uma ampla área ao lado do IPF. Convocamos, em seguida, engenheiros e arquitetos para a elaboração da planta, em consonância com o modelo de um estabelecimento similar que visitara anos antes em Havana, Cuba.
No lugar onde antes era a pocilga do cárcere assistimos à edificação gradual do prédio, orçado em Cr$ 12 milhões, e que contou com a importância recolhida na CEF. Outros Cr$ 600 mil foram empregados na aquisição de equipamentos.
Era a materialização de um sonho.
No dia 20 de dezembro de 1993, com a presença de um número significativo de pessoas, inaugurava-se a Creche Amadeu Barros Leal, uma sociedade civil de natureza filantrópica, com prazo de duração indeterminado, tendo por finalidade estatutária prestar assistência social e educacional a crianças carentes de 0 a 6 anos de idade.
Registre-se que o homenageado, meu saudoso pai Amadeu Barros Leal, falecido em 10.11.78, formou-se em Direito em 1942, foi carteiro dos Correios e Telégrafos no Ceará (de 1934 a 1942); Diretor da União das Classes Produtoras do Ceará; Diretor da firma Ceará Mineral, Comercial e Industrial Ltda. Jornalista, fundador da antiga CINEMAR, empresa cinematográfica que congregou, entre outros, os cines Samburá (depois Fortaleza), Araçanga (depois Art), Jangada, Toaçu e Atapu (antigo cine Dois Irmãos). Além disso, foi Presidente da Rádio Dragão do Mar; Conselheiro da Seccional da OAB do Ceará e Advogado militante. Seu nome a esta instituição se justifica maiormente por sua obra de amparo ao menor abandonado e que se descreve em seu livro “Prometo não Ficar Calado”.
Nos sete primeiros anos funcionou em regime de internato, como se fora um abrigo, atendendo tão-somente aos filhos de detentas do IPF, bem como de funcionários do centro penitenciário. No início era uma clientela diminuta, pouco mais de vinte crianças.
Anos depois, com a transferência da sede do presídio feminino, foi preciso diversificar a clientela e decidimos abri-la igualmente para a comunidade. Era o princípio de um novo tempo.
Hoje são cem crianças que atendemos, de ambos os sexos, metade das quais corresponde a filhos de reclusos.
O sonho continua. Não obstante as profundas dificuldades vivenciadas ao longo dos anos, em nenhum instante a chama se apagou. Ao revés. De cada óbice, de cada adversidade extraímos ânimo e inspiração para renovar nossa confiança e nossa capacidade de sorrir e superar obstáculos.
Vocês, queridos amigos, com seu testemunho, com sua presença, com seu apoio, nos dão o alento com que nutrimos nossa fé. Muito obrigado.
César Barros Leal





